Existe uma cena comum em qualquer aula de idioma.
O professor explica bem.
Dá exemplos.
Corrige com cuidado.
Contextualiza.
A hora passa rápido e a sensação ao final é boa.
Só que existe uma diferença silenciosa entre ouvir alguém falando inglês durante uma hora e precisar construir o próprio inglês durante uma hora.
E essa diferença é bastante difícil de perceber por dentro da aula.
Paramos de olhar apenas para o conteúdo
Ao longo deste ano, passamos a observar centenas de aulas com um tipo de atenção diferente.
Não apenas o que estava sendo ensinado. Mas a dinâmica da conversa.
Quem ocupa o espaço. Como o aluno desenvolve uma resposta. O que acontece depois que ele diz a primeira frase. Ou seja, o que de fato acontece quando alguém senta para praticar conversação em inglês.
A primeira coisa que encontramos era razoavelmente previsível. Boa parte do tempo de fala pertencia ao professor, e não por descuido. Explicar exige fala. Corrigir exige fala. Modelar o idioma exige fala.
O que veio depois foi mais interessante.
Falar mais vezes não é falar por mais tempo
Quando os professores passaram a enxergar a própria distribuição de fala, o comportamento mudou sozinho. O aluno passou a ocupar bem mais espaço na conversa.
Parecia a resposta.
Até olharmos mais fundo.
Porque havia uma coisa que praticamente não se moveu: o tamanho de cada fala do aluno.
Ele falava mais vezes.
Mas continuava falando em blocos curtos.
Respondia, o professor comentava, vinha outra pergunta, respondia de novo.
Havia bastante interação. Havia pouca construção.
E comunicar-se em outro idioma depende muito menos de responder do que de sustentar. Segurar uma ideia de pé por mais tempo. Perceber no meio do caminho que a frase começou errada. Contornar, achar outra palavra e seguir mesmo assim.
O mesmo tempo de aula, dois resultados
Imagine o primeiro ritmo.
O professor pergunta.
O aluno responde curto.
O professor entra, corrige e completa.
Faz uma pergunta nova.
O aluno responde curto de novo.
Agora imagine o segundo.
O professor provoca.
O aluno responde.
O professor não muda de assunto. Pergunta por quê. Pede um exemplo. Quer saber o que aconteceu depois.
O aluno desenvolve.
E continua.
Os dois ritmos consomem exatamente o mesmo número de minutos.
O que o aluno faz com esses minutos é completamente diferente.
O que significa praticar conversação em inglês de verdade
É aqui que a palavra “conversação” costuma enganar.
Conversar bastante não significa praticar conversação em inglês com profundidade. Uma aula pode ser cheia de trocas rápidas, agradáveis e fluidas, e ainda assim exigir pouquíssimo esforço de construção.
As perguntas mais úteis para avaliar a própria aula talvez sejam outras.
Quem está construindo as respostas?
Quem precisa procurar as palavras?
Quem improvisa quando o vocabulário falta?
Quem aguenta o silêncio enquanto a frase não chega?
Esse último talvez seja o mais importante de todos.
Professores são treinados para ajudar. Quando o aluno hesita, existe um impulso quase automático de completar a frase. Quando ele demora para achar a palavra, de oferecê-la. Quando constrói uma frase torta, de arrumá-la.
Tudo isso pode ser útil.
Mas existe um ponto em que ajudar demais ocupa o espaço que pertencia ao aluno.
Alguns segundos de silêncio são desconfortáveis para quem ensina.
Para quem aprende, talvez seja exatamente o tempo necessário para descobrir que conseguia continuar sozinho.
O objetivo não é minimizar o papel do professor
Nada disso significa que a melhor aula seja aquela em que o professor fala o mínimo possível.
Uma aula em que o aluno ocupa quase todo o tempo não é automaticamente melhor do que outra mais equilibrada.
Há momentos em que a explicação é justamente o que falta. Há perguntas fechadas que precisam ser feitas, porque verificar se o aluno entendeu é parte do trabalho. Há correções que não podem esperar até o fim.
O ponto não é falar menos.
É entender o que está acontecendo naquela conversa.
Talvez a régua não seja quanto você falou
Na Wort, começamos esse trabalho querendo responder uma pergunta bastante simples: quem fala na aula?
Hoje a pergunta ficou melhor.
Quando o aluno começa a falar, quanto espaço conseguimos dar para que ele descubra até onde vai sozinho?
Talvez praticar conversação em inglês seja, principalmente, aprender a sustentar a própria ideia por um pouco mais de tempo do que parece confortável.
E talvez ensinar alguém a se comunicar seja aprender a não ocupar todos os silêncios.
Pense na sua última aula. Quanto daquele tempo foi você construindo, e não apenas acompanhando? Me conta como foi clicando aqui.
Um abraço e boa semana!
Lisandro Jardim – Fundador e CEO na Wort Idiomas


